Êêêê, Paulinha... de vez em quando eu me pego perguntando que tipo de reação você teria se soubesse quem iria se tornar. Eu sei que não estava nos seus planos morar em Pederneiras, ser professora, analista contábil, ter cabelo liso, fazer as unhas toda semana e ter uma vontade louca de um dia se casar, ter filhos e sossegar.
Depois de todo esse tempo, posso afirmar que infelizmente você não aproveitou muito bem essa fase de infância. Isso porque você estava preocupada demais em crescer e se tornar uma adulta responsável. Gostaria que você tivesse descoberto antes que aqui na frente não é tão legal assim. Você tem que pagar contas, pensar muito no futuro, tomar decisões difíceis, fazer coisas que não quer ou não gosta... Apesar de todos os benefícios, acordar todo dia cedo pra trabalhar é tão chato quanto ter que ir à escola – receio informar que todas as piadas dos adultos sobre trabalho são verdadeiras.
Pelo menos você brincou um monte na rua, com pés descalços. Jogou amarelinha, pulou elástico, brincou de esconde-esconde e pega-pega, perdeu várias vezes na queimada, se encheu de ralados por causa de patins. Eu tenho a impressão de que as crianças de hoje em dia não aproveitam muito essas coisas. Ainda bem que você foi da antiga geração.
Tem algumas coisas que você deve saber:
- Não devia ter ficado tão preocupada quando quebrou os dois dentes da frente do primo Flavinho com um moedor de cana em Rosana, porque eles eram de leite, sua boba! E os verdadeiros cresceram e ficaram normais.
- Eu sei o quanto foi difícil todas as terças e quintas, em que você tinha que pegar ônibus lotado e sozinha pra aprender Inglês. Mas valeu a pena, viu? Ajudou muito a conseguir um bom emprego.
- Não, infelizmente nada de extra-especial acontece durante a adolescência. Não se vira bruxa, sereia, metamorfa ou qualquer coisa do gênero. Não devia ter tido essa esperança.
- Todos aqueles filmes e livros de romance só servem pra deixar a gente à espera de algo que nunca acontece. E se acontece é rápido e traumatizante.
- Sabe o professor Marcelo? Aquele que foi o seu primeiro professor, que te ensinou a ler, escrever e fazer continhas? Aquele por quem você era apaixonada! Aquele com quem você queria que sua mãe se casasse, sabe? Pois é, ele é gay.
Vivendo e aprendendo. Enquanto você queria muito ser adulta, eu quero muito ser criança. Você pode ficar desapontada, eu sei, mas eu faço agora um monte de coisa que você não fez antes. Eu rio alto, eu faço careta, faço manha, mostro a língua, não entendo piadas difíceis, dou pulinhos quando estou feliz, xingo os outros de bobo/boba e adoro desenho animado. Mas pelo menos uma coisa não mudou: ainda amo sorvete – só que agora tenho dinheiro pra comprar quantos eu quiser!
Até mais!
Paulona